São Paulo e Campinas sofrendo bombardeios aéreos; o porto de Santos bloqueado por navios de guerra; cidades dos vales do Paraíba e do Ribeira sofrendo ataques de artilharia e trincheiras repletas de soldados cavadas nas divisas do Estado. Tudo isso, hoje algo impensável, aconteceu faz 80 anos.
A Revolução de 32 não é um mero
registro histórico. Foi algo que afetou milhões de pessoas e ainda assombra
imaginações e o imaginário.

Na capital, os monumentos e os nomes de ruas e avenidas deixam isso claro. Na região próxima ao parque do Ibirapuera ficam tanto o Monumento às Bandeiras, do escultor Victor Brecheret, como o Obelisco Mausoléu aos Heróis de 32, de Galileo Ugo Emendabili.
Ironicamente, a Fundação Getúlio Vargas
fica próxima à avenida batizada com a data do início do levante, a 9 de Julho.
Mas São Paulo continua sendo resistente a usar o nome do ditador. Não há o
equivalente à importante avenida Presidente Vargas, do Rio, por exemplo.
Vargas foi quem provocou a coisa,
afinal, com a derrubada do presidente Washington Luís, em outubro de 1930. Ele
até foi bem recebido no Estado a caminho da capital, então o Rio de Janeiro.
Mas logo começou a bater de frente com os políticos paulistas, saudosos do
poder que tinham na República Velha.
Por exemplo, Vargas nomeou como
"interventor" (no lugar do governador) o tenentista pernambucano João
Alberto Lins de Barros.
Só em março de 1932 Vargas nomeou um
interventor mais ao gosto dos paulistas, um civil e nativo do Estado, o
diplomata aposentado Pedro de Toledo. Mas ao mesmo tempo o ditador quis mandar
no comando da Força Pública (como era chamada a hoje Polícia Militar).
A Força Pública era um trunfo
particularmente importante, pois constituía um verdadeiro exército em menor
escala, dotada de armas como metralhadoras.
Os políticos e os militares envolvidos
na conspiração contra Vargas foram ineptos. Deflagraram o movimento antes da
hora, sem articular ações eficazes com potenciais revoltosos em outros estados,
especialmente Minas Gerais e Rio Grande do Sul. São Paulo, com pequeno apoio de
Mato Grosso, ficou isolado.
A melhor estratégia seria concentrar
forças no Vale do Paraíba e rumar ao centro do poder, o Rio. Em vez de fazer
isso, os líderes paulistas preferiram ficar na defesa.
Já a estratégia do ditador foi correta. Isolou São Paulo por terra e por mar, e diplomaticamente.
Já a estratégia do ditador foi correta. Isolou São Paulo por terra e por mar, e diplomaticamente.
As principais frentes de combate
estavam todas vinculadas a ferrovias e rodovias. É por isso que os famosos
trens blindados foram tão importantes no conflito.
Os dois lados tiveram centenas de
mortos. Não houve batalhas espetaculares; era mais razoável fugir ou se render
do que lutar até a morte em uma guerra "entre irmãos". Uma batalha
podia ter dez mortos, 30 feridos e 400 prisioneiros.
Vargas venceu em 32, mas houve a
Constituinte em 34 (que ele já tinha prometido antes da revolta). Os líderes
paulistas foram exilados, mas por pouco tempo. Vargas deu um golpe de Estado em
1937, mas o legado de 32 permaneceu e foi importante no debate ideológico
subsequente e que vem até hoje.
ESTUDOS
Em 80 anos, muita tinta foi usada para
descrever a Revolução de 1932. É possível identificar pelo menos três fases.
Houve uma primeira onda de textos,
principalmente de origem paulista (e incluindo livros de memórias), exaltando
os ideais democráticos do levante; e em seguida uma leva posterior, de origem
marxista, ressaltando a ideia de que tudo não passou de uma briga entre grupos
da "classe dominante", e sempre que foi necessário os
"proletários" foram perseguidos.
Novos pesquisadores tentam entender o caráter multifacetado do evento, identificando uma participação popular inédita na história.
O historiador Marco Antonio Villa deixa
claro que a "questão democrática" foi "a grande herança política
da revolução, uma espécie de tesouro perdido, muito valioso, especialmente em
um país marcado por uma tradição conservadora, elitista e antidemocrática".

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